segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

JANELAS ABERTAS N°2


Sim
Eu poderia abrir as portas que dão pra dentro
Percorrer correndo corredores em silêncio
Perder as paredes aparentes do edifício
Penetrar no labirinto
O labirinto de labirintos
Dentro do apartamento

Sim
Eu poderia procurar por dentro a casa
Cruzar uma por uma as sete portas, as sete moradas
Na sala receber o beijo frio em minha boca
Beijo de uma deusa morta
Deus morto, fêmea de língua gelada
Língua gelada como nada

Sim
Eu poderia em cada quarto rever a mobília
Em cada uma matar um membro da família
Até que a plenitude e a morte coincidissem um dia
O que aconteceria de qualquer jeito

Mas eu prefiro abrir as janelas pra que entrem
Todos os insetos

(Caetano Veloso)

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