quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

JOANA FRANCESA



Tu ris, tu mens trop
Tu pleures, tu meurs trop
Tu as le tropique
Dans le sang et sur la peau
Je me dit loucura e de torpor
Já é madrugada
Acorda acorda acorda acorda

Mata-me de rir
Fala-me de amor
Songes et mensonges
Sei de longe e sei de cor
Je me dit prazer e de pavor
Já é madrugada
D'accord d'accord d'accord d'accord

Vem molhar meu colo
Vou te consolar
Vem, mulato mole
Dançar dans mes bras
Vem, moleque me dizer
Onde é que está
Ton soleil, ta braise

Quem me enfeitiçou
O mar, marée, bateau
Tu as le parfum
De la cachaça e de suor
Je me dit preguiça e de calor
Já é madrugada
Acorda acorda acorda acorda

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

A OBRA-PRIMA IGNORADA

"O sol é do tamanho de um pé"

(Heráclito de Éfeso)

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Imaginem uma testa calva, abaulada, proeminente, projetando-se sobre um nariz pequeno e achatado, de ponta arrebitada como o de Rabelais ou Sócrates; uma boca risonha e enrugada, um queixo curto altivamente erguido, ornado com uma barba grisalha aparada em forma de ponta; olhos verde-mar, aparentemente embaciados pela idade, mas que, pelo contraste com o branco nacarado em que flutuava a pupila, deviam por vezes lançar olhares magnéticos durante um acesso de raiva ou entusiasmo. 

Trabalhava com um ardor tão apaixonado, que o suor gotejava em sua fronte despojada, e era tão rápido, com pequenos movimentos tão impacientes, tão sacudidos, que ao jovem Poussin parecia que havia no corpo do bizarro personagem um demônio agindo por suas mãos, tomando-as de modo fantástico e à sua revelia: o brilho sobrenatural dos seus olhos, suas convulsões que pareciam resultar de uma resistência, davam àquela idéia uma aparência de verdade que atuava, decerto, sobre uma imaginação jovem. Ele ia dizendo:"Paf, paf, paf! É assim que isso se espalha, meu rapaz!Vamos, meus toquezinhos, deem uma arruivada nesse tom glacial! Vamos lá! Pon! Pon! Pon!", ele dizia, aquecendo as partes onde notara um defeito de vitalidade, fazendo sumir, com umas poucas placas de cor, as diferenças de temperamento e restabelecendo a unidade de tom que uma ardente egípcia pedia.

- ...como uma porção de ignorantes, que acham que desenham direito só porque traçam linhas cuidadosamente precisas, não marquei rispidamente as bordas externas da minha figura, acentuando cada detalhe da anatomia, pois o corpo humano não acaba com linhas. Nisso os escultores se aproximam melhor da verdade do que nós. A natureza comporta uma série de volumes que se envolvem uns dentro dos outros. Rigorosamente falando, o desenho não existe! Não ria, meu rapaz! Por estranhas que lhe pareçam as palavras, um dia você há de entender os motivos. A linha é o meio pelo qual o homem percebe o efeito da luz sobre os objetos, mas não existem linhas na natureza, na qual tudo é cheio: é modelando que se desenha, ou seja, quando se separa as coisas do meio em que elas se encontram, a distribuição da luz é que cria a aparência do corpo! De modo que não fixei os lineamentos, espalhei pelos contornos uma névoa de meias-tintas louras e quentes que fazem com que não se consiga apontar precisamente o lugar onde os contornos se encontram com os fundos. De perto, o trabalho parece meio esponjoso, carece de precisão, mas à distancia de dois passos tudo se afirma, se detém, se destaca; o corpo gira, as formas ficam salientes, sente-se o ar circular ao redor. Ainda não estou satisfeito, porém; tenho dúvidas. Talvez não devesse desenhar apenas um traço e fosse melhor começar uma figura pelo meio, prendendo-se primeiramente às saliências mais iluminadas para depois passar para as porções mais sombrias. Não é assim que age o sol, esse divino pintor do universo? Oh! Natureza, natureza! Quem alguma vez já te surpreendeu em tuas fugas? Olhe, o excesso de ciência, tanto quanto o de ignorância, desemboca em negação. Duvido da minha obra!

Voltando-se para a frente do pretenso quadro, disse Poussin:
- Só o que vejo aí são cores confusamente amontoadas e contidas por uma profusão de linhas esquisitas formando uma muralha de pintura.
- Estamos enganados, olhe só - retrucou Porbus.

Ao se aproximarem, avistaram num canto da tela a ponta de um pé descalço saindo daquele caos de cores, tons, nuances indecisas, uma espécie de névoa sem forma, mas um pé delicioso, um pé vivo! Ficaram petrificados de admiração diante daquele fragmento saído de uma incrível, lenta e paulatina destruição. Aquele pé surgia ali feito o torso de alguma Vênus de mármore de Paros aparecendo entre os escombros de uma cidade incendiada.

(Honoré de Balzac, A obra-prima ignorada, com adaptações)
                 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

THE POEM

they all keep publishing poems
but is doubtful what a
poem can really accomplish.

centuries of poems
and we're back to the
starting point.

like philosophy, history,
medicine, science, poems seem to
alter things,
seem to lead toward a way
out
then falter against the
changing currents and increasing
odds.

a poem is no better than a
good can opener,
a spare tire,
or
aspirin for a
headache.

the poem isn't much
but let me tell you
if I hadn't discovered
it
I would be dead
or
you would be dead
or many people
would be
dead
or
if not dead
then horribly
multilated
in one sense or
another.

still, a poem can only
be a poem.

lines like this

floating on a page

burning holes in the face of
death

twisting the cap off tube
of
night

following the dog of summer
to the end of his
rope.

huh?

(Charles Bukowski, O Amor é Tudo Que Nós Dissemos Que Não Era)
         

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

OPACIDADES

Santa Joana d'Arco na fogueira, últimos momentos

das inquietações
eis o calor intenso:
homenageia o carrasco o grito
ou o silêncio?
                

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

O ABSURDO 2

Em tom de troça, muitas vezes se cita Schopenhauer, que fazia o elogio do suicídio diante de uma mesa bem servida. Mas não vejo nisto motivo para brincadeira. Esta maneira de não levar o trágico muito a sério não é tão grave assim, mas ela acaba condenando o seu homem.

No apego de um homem a sua vida há algo mais forte que todas as misérias do mundo. O juízo do corpo tem o mesmo valor que o do espírito, e o corpo recua diante do aniquilamento. Cultivamos o hábito de viver antes de adquirir o de pensar. Nesta corrida que todos os dias nos precipita um pouco mais em direção à morte, o corpo mantém uma dianteira irrecuperável.

(Albert Camus, O Mito de Sísifo)
          

GRITE QUANDO SE QUEIMAR

O que o mantinha fora da sargeta era pura sorte, e a sorte jamais durava. Bem, era uma pena aquele negócio da Lu, mas Lu era uma vencedora. Esvaziou o copo e deitou-se. Pegou Resistência, Rebelião e Morte, de Camus... leu algumas páginas. Camus falava de angústia, terror, e da miserável condição humana, mas falava disso de uma forma tão cômoda e floreada... a linguagem... aquele ali achava que nada afetava a ele ou a sua literatura. Em outra palavras, era como alguém que acabou de concluir um lauto jantar de bife com batatas e salada, e depois enxaguou com uma garrafa de bom vinho francês. A humanidade podia ter andado sofrendo, mas ele não. Um sábio, talvez, mas Henry preferia  alguém que gritasse quando se queimasse. Largou o livro no chão e tentou dormir.

(Charles Bukowski, Numa Fria)
             

O ABSURDO

Eu dizia que o mundo é absurdo, mas ia muito depressa. Este mundo não é razoável em si mesmo, eis tudo o que se pode dizer. Porém o mais absurdo é o confronto entre o irracional e o desejo desvairado de clareza cujo apelo ressoa no mais profundo do homem. O absurdo depende tanto do homem quanto do mundo. Por ora, é o único laço entre os dois.

Se considero verdadeiro esse absurdo que rege minhas relações com a vida, se me deixo penetrar pelo sentimento que me invade diante do espetáculo do mundo, pela clarevidência que me impõe a busca de uma ciência, devo sacrificar tudo a tais certezas e encará-las de frente para poder mantê-las. Sobretudo, devo pautar nelas minha conduta e perseguí-las em todas as suas consequências. Falo aqui de honestidade.

Neste ponto do seu caminho, o homem se encontra diante do irracional. Sente em si o desejo  de felicidade e de razão. O absurdo nasce desse confronto entre o apelo humano e o silêncio irracional do mundo. Isso é o que não devemos esquecer. A isto é que devemos nos apegar, porque toda a consequência de uma vida pode nascer daí. O irracional, a nostalgia humana e o absurdo que surge do seu encontro, eis os três personagens do drama que deve necessariamente acabar com toda a lógica de que uma vida é capaz.

Se julgo que uma coisa é verdadeira, devo preservá-la. Se me disponho a procurar a solução para um problema, ao menos não posso escamotear com essa mesma solução um dos termos do problema. O único dado para mim é o absurdo. A questão é saber como livrar-se dele e se o suicídio deve ser deduzido desse absurdo. A primeira, e no fundo, única condição das minhas investigações é preservar aquilo que me oprime, respeitando em consequência o que julgo essencial nele. Acabo de defini-lo como uma confrontação e uma luta sem trégua.

E levando ao extremo essa lógica absurda, devo reconhecer que tal luta supõe a ausência total de esperança (que nada tem a ver com o desespero), a recusa contínua ( que não deve ser confundida com renúncia) e a insatisfação consciente (que não poderia se assimilar com a inquietude juvenil). Tudo o que destrói, escamoteia ou desfalca essas exigências (e em primeiro lugar a admissão que destrói o divórcio) arruína o absurdo e desvaloriza a atitude que pode então ser proposta. O absurdo só tem sentido na medida em que não seja admitido.

Vamos morrer, escapar pelo salto, reconstruir uma casa de ideias e de formas à nossa medida? Ou, ao contrário, vamos manter a aposta dilacerante e maravilhosa do absurdo?

Neste ponto, o problema se inverte. Anteriormente tratava-se  de saber se a vida devia ter um sentido para ser vivida. Agora parece, pelo contrário, que será tanto melhor vivida quanto menos sentido tiver. Viver uma experiência, um destino, é aceitá-lo plenamente.

Para um homem sem antolhos não há espetáculo mais belo que o da inteligência às voltas com uma realidade que a supera. O espetáculo do orgulho humano é inigualável. Compreendo então por que as doutrinas que me explicam tudo ao mesmo tempo me enfraquecem.

O absurdo me esclarece o seguinte ponto: não há amanhã. Esta é, a partir de então, a razão da minha liberdade profunda.

Agora, trata-se viver.

(Albert Camus, O Mito de Sísifo. Trechos adaptados)
              

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

NINGUÉM MORRE JAMAIS

- E Vicente? - perguntou ela com voz monótona, as duas mãos agora na perna dele.
- Morreu. No ataque à cidade de Celadas.
- Vicente é meu irmão. - Ela esticou o corpo e tirou as mãos da perna dele.
- Eu sei - disse Enrique, e continuou comendo.
- É meu único irmão.
- Pensei que você já soubesse.
- Não sabia, e ele é meu irmão.
- Sinto muito, Maria. Eu devia ter dito de outra maneira.
- Ele realmente morreu? Tem certeza? Não seria uma notícia sem confirmação?
- Olhe, Rogello, Basilio, Esteban, Felo e eu estamos vivos. Os outros morreram.
- Todos?
- Todos.
- Não me conformo.
- Não devemos ficar falando nisso. Morreram.
- Mas ele é meu irmão. Você não entendeu ainda? Meu irmão.
- Somos todos irmãos. Alguns morreram, outros estão vivos. Nos mandaram de volta para que sobrassem alguns. Do contrário não sobraria ninguém. Agora temos que trabalhar.
- Mas por que morreram todos?
- Estavamos numa divisão de ataque. Neste caso ou se morre ou se é ferido. Nós outros fomos feridos.

Ela não respondeu e ele acabou de comer.

Soprava um vento fresco nas árvores, e estava frio na varanda. Ele recolheu os pratos no cesto e limpou a boca com guardanapo. Limpou as mãos cuidadosamente e pôs o braço na cintura dela. Ela chorava.

- Não chore, Maria. O que aconteceu é passado. Precisamos pensar no que temos de fazer. Temos muito que fazer.

Ela continuou calada, o rosto iluminado pela luz da rua, olhando para frente.

- Precisamos nos vigiar contra romantismos. Este lugar aqui é um exemplo de romantismo. Precisamos parar com o terrorismo. Precisamos cuntinuar evitando cair novamente em aventureirismos revolucionários.

A moça continuava calada. Ele olhou aquele rosto em que tinha pensado durante os meses em que pôde pensar em alguma coisa que não fosse o seu trabalho.

- Você fala como um livro - ela disse. - Não como ser humano.
- Desculpe. São lições que aprendi. Coisas que sei que preciso fazer. Para mim é mais real do que tudo.
- Para mim só os mortos são reais - disse ela.
- Prestamos homenagens a eles. Mas eles não são importantes.
- Olhe você falando de novo como um livro - disse ela zangada. - Seu coração é um livro.
- Deculpe, Maria. Pensei que você entendesse.
- Só entendo os mortos.

Ele sabia que não era verdade porque ela não os viu mortos como ele os viu, na chuva no olival da Jarama, no calor das casas bombardeadas de Quijorna, e na neve em Teruel. Mas sabia que ela o culpava por estar vivo quando Vicente não estava mais; e de repente, na parte humana ínfima e incondicional que restara nele, e que ele não sabia que ainda guardava, sentiu-se profundamente ofendido.

- Tinha um passarinho - disse ela. - Um tordo poliglota na gaiola.
- Tinha. Eu soltei.
- Que pessoa mais caridosa! - disse ela em zombaria. - Os soldados são todos sentimentais?

Ele se sentiu ofendido pela segunda vez, ele que pensara ter um coração duro que nada podia ofender nunca mais, a não ser a dor. Sentou-se na cama e se inclinou para frente.

- Levante o meu suéter - disse ele.
- Eu não.

Ele levantou o suéter nas costas e se encurvou.

- Veja, Maria. Isto não é de livro.
- Não posso ver. Não quero ver.
- Ponha a mão embaixo nas minhas costas.

Ele sentiu os dedos dela tocando aquele ponto afundado onde podia caber uma bola de beisebol, a cicatriz horrenda do ferimento em que o cirurgião tinha enfiado a mão enluvada para limpar, ferimento que ia de um lado da cintura ao outro. Sentiu o toque dos dedos dela e se encolheu. No momento seguinte ela o abraçava e o beijava, os lábios como uma ilha no repentino mar branco de dor que surgiu, invadindo-o, como uma onda brilhante e insuportável. Os lábios ainda nos dele; depois a dor de repente cessando e ele sentado sozinho, molhado de suor, e Maria chorando e dizendo: - Oh, Enrique, me perdoe. Me perdoe, Enrique.

- Tudo bem. Nada a perdoar. Mas não foi parte de nenhum livro.
- Me beije, Enrique.
- Só se for com muito cuidado.

Na cama, no escuro, conduzindo-se com cuidado, os olhos fechados, os lábios dele e os dela em contato, a felicidade sem dor, a volta para casa de repente sem dor, a sensação de estar vivo voltando sem dor, o conforto de ser amado e ainda sem dor; era um vazio de amar, agora não mais vazio, e os dois jogos de lábios no escuro, encontrando-se felizes e com doçura, no escuro e no calor da casa, e sem dor, no escuro; de repente soa a sirene cortante, despertando toda a dor do mundo. Era a sirene real, não a do rádio. Não era uma sirene. Eram duas. Vinham cada uma de um lado da rua.

Ele virou a cabeça e depois se levantou. Achou que a volta para casa durara pouco.

- Vamos - disse ele - nós dois. Aqui não há nada para ser protegido. O material é imprestável. É melhor fugirmos.
- Quero ficar. Quero proteger você.

Ela pegou o Colt no coldre debaixo do braço dele, ele deu-lhe um tapa na cara. -Vamos. Não seja ingênua. Vamos!
 
Desceram a escada. Ele sentiu a moça bem atrás dele. Abriu a porta e saíram juntos. Ele trancou a porta. - Corre, Maria - disse. - Nesta direção passando pelo terreno. Já!

- Quero ir com você.

Ele deu-lhe outro tapa. - Corra, depois pule na vegetação e rasteje. Me desculpe, Maria. Vá. Eu vou pelo outro lado. Vá. Ora essa, vá!

No capim, a moça continuava deitada com as mãos cruzadas no alto da cabeça.   "Me ajude a agüentar isto", disse ela apenas para o capim, pois estava sozinha ali. E de repente, nominalmente, soluçando: "Me ajude, Vicente. Me ajude, felipe. Me ajude Chucho. Me ajude, Arturo. Me ajude agora, Enrique. Me ajude."

Enrique, me ajude, ela pensou. Tirou as mãos da cabeça e fechou-as de encontro ao corpo. Assim é melhor, pensou. Se eu correr atiram. Será mais simples.

Levantou-se lentamente e correu para o carro. O holofote pegou-a em cheio. Ela correu vendo só o feixe de luz, uma luz branca cegante. Achou que era a melhor maneira de sair daquilo.

Atrás dela gritavam, mas não houve tiro. Um homem lhe deu um violento safanão, e ela caiu. Ouviu-lhe a respiração quando ele a segurou.

- Não - disse ela. - Não. Não. - E gritou: - Me ajude, Vicente! Me ajude, Enrique!
- Já morreram. Não podem ajudar você. Não seja boba - disse alguém.
- Podem. e vão me ajudar. Os mortos vão me ajudar. Vão, sim. Os nossos mortos vão me ajudar.
- Então dê uma olhada em Enrique - disse o tenente. - Veja se ele está em condições de ajudar. Aí na traseira do carro.
- Ele está me ajudando - disse Maria - Não vê que ele está me ajudando? - Obrigada, Enrique. Muito obrigada!

Maria sentou-se e ficou imóvel apoiada no encosto do assento. Parecia senhora de uma estranha confiança. A mesma confiança que outra moça da mesma idade dela tinha sentido há pouco mais de quinhentos anos na praça de uma cidade chamada Ruão.

Maria não pensou nisso. Ninguém no carro pensou nisso. As duas moças, uma chamada Joana, a outra Maria, nada tinham em comum a não ser essa súbita e estranha confiança que as socorreu quando precisavam. mas todos os policiais que estavam no carro sentiam-se constrangidos de ver Maria sentada ereta com o rosto luzindo à luz elétrica.

O negro de chapéu palheta saiu da sombra da casa e fez sinal para o primeiro carro. Subiu para o assento da frente, assim ficando dois ao lado do motorista. Os quatro carros pegaram a estrada principal que levava a La Havana pela beira-mar.

Apertado no assento da frente o negro enfiou a mão debaixo da camisa e tocou com dedos a guia de contas azuis. Manteve-se calado, os dedos segurando as contas. Antes de conseguir o emprego de alcagüete da polícia de La Havana era estivador, e ia receber cinqüenta dólares pelo trabalho daquela noite. Cinqüenta dólares é muito dinheiro em La Havana, mas o negro não podia mais pensar no dinheiro. Virou a cabeça um pouquinho e devagar quando entraram na estrada iluminada, o Malecon; olhou para trás e viu o rosto da moça luzindo, altivo, a cabeça erguida.

O negro assustou-se e envolveu com os dedos a guia de contas azuis e apertou forte. Mas o medo não passou porque ele estava agora exposto a uma magia bem mais antiga.

(Ernest Hemingway, Contos - Volume 3. Conjunto de trechos adaptados)
           

sábado, 29 de dezembro de 2012

PALAVRA MÁGICA DA ALMA

De repente, como se um destino médico me houvesse operado de uma cegueira antiga com grandes resultados súbitos, ergo a cabeça, da minha vida anónima, para o conhecimento claro de como existo. E vejo que tudo quanto tenho feito, tudo quanto tenho pensado, tudo quanto tenho sido, é uma espécie de engano e loucura. Maravilho-me do que consegui não ver. Estranho quanto fui e que vejo que afinal não sou.

Olho, como numa extensão ao sol que rompe nuvens, a minha vida passada; e noto, com um pasmo metafísico, como todos os meus gestos mais certos, as minhas ideias mais claras, e os meus propósitos mais lógicos, não foram, afinal, mais que bebedeira nata, loucura natural, grande desconhecimento. Nem sequer representei. Representaram-me. Fui, não o ator, mas o gesto dele.

Tudo quanto tenho feito, pensado, sido, é uma soma de subordinações, ou a um ente falso que julguei meu, por que agi dele para fora, ou de um peso de circunstâncias que supus ser o ar que respirava. Sou, neste momento de ver, um solitário súbito, que se reconhece desterrado onde se encontrou sempre cidadão. No mais íntimo do que pensei não fui eu.

Vem-me, então, um terror sarcástico da vida, um desalento que passa os limites da minha individualidade consciente. Sei que fui erro e descaminho, que nunca vivi, que existi somente porque enchi tempo com consciência e pensamento. E a minha sensação de mim é a de quem acorda depois de um sono cheio de sonhos reais, ou a de quem é liberto, por um terramoto, da luz pouca do cárcere a que se habituara.

Pesa-me, realmente me pesa, como uma condenação a conhecer, essa noção repentina da minha individualidade verdadeira, dessa que andou sempre viajando sonolentamente entre o que sente e entre o que vê.

É tão difícil escrever o que se sente quando se sente que realmente se existe, e que a alma é uma entidade real, que não sei quais são as palavras humanas com que possa defini-lo. Não sei se estou com febre, como sinto, se deixei de ter a febre de ser dormidor da vida. Sim, repito, sou como um viajante que de repente se encontre numa vila estranha sem saber como ali chegou; e ocorrem-me esses casos dos que perdem a memória e são outros durante muito tempo. Fui outro durante muito tempo - desde a nascença e a consciência -, e acordo agora no meio da ponte, debruçado sobre o rio, e sabendo que existo mais firmemente do que fui até aqui. Mas a cidade é-me incógnita, as ruas novas, e o mal sem cura. Espero, pois, debruçado sobre a ponte, que me passe a verdade, e eu me restabeleça nulo e fictício, inteligente e natural.

Foi um momento, e já passou. Já vejo os móveis que me cercam, os desenhos do papel velho das paredes, o sol pelas vidraças poeirentas. Vi a verdade um momento. Fui um momento, com consciência, o que os grandes homens são com a vida.  Recordo-lhes os actos e palavras, e não sei se não foram também tentados vencedoramente pelo Demónio da Realidade. Não saber de si é viver. Saber mal de si é pensar. Saber de si, de repente, como neste momento lustral, é ter subitamente a noção da mónada íntima, da palavra mágica da alma. Mas esta luz súbita cresta tudo, consume tudo. Deixa-nos nus até de nós.

Foi só um momento, e vi-me. Depois já não sei sequer dizer o que fui. E, por fim, tenho sono, porque, não sei porque, acho que o sentido é dormir.

(Fernando Pessoa, Livro do Desassossego)
                    

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

MEIO DIA

Quando desvio os olhos
do desgastado caminho reto
é você quem vejo
sorrindo e me lembrando
que matéria de sonhos líricos
não é, ardente e perdida de amor
não é, sonhadora de ideais em flor
não é, coração que deseja a ruína
não é, esperança que não se afogou
não é, donzela de qual torre brônzea
não é, recompensa a quem não se compensa
não é, lua cheia querendo atenção
não é...
senão brisa,
inconstante,
que acaricia e se vai
quando quer
porque quer
porque veio
porque quando,
tão leve
e tão cheia de cicatrizes
e transparências
e zumbidos
e tons
e força
e simplicidade
e escárnio,
fio de navalha,
cruel,
acolhedora; e
impossível; e
proibida; e
desejável; e
atingível
quiçá apenas
ao maduro
coração
sob a luz viva
do meio dia
de uma vida

inteira.
        

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

UM POEMA É UMA CIDADE

um poema é uma cidade de ruas e esgotos
cheia de santos, heróis, mendigos, loucos,
cheia de bebida e banalidade,
cheia de chuva e trovão e períodos de
estiagem, um poema é uma cidade em guerra,
um poema é uma cidade perguntando ao relógio por quê,
um poema é uma cidade em chamas,
um poema é uma cidade armada
suas barbearias cheias de bêbados cínicos,
um poema é uma cidade onde deus passeia nu
pelas ruas como Lady Godiva,
onde cães latem de noite, e afugentam
a bandeira; um poema é uma cidade de poetas,
a maioria deles bem parecidos
e invejosos e amargos...
um poema é esta cidade agora,
50 milhas de lugar algum,
9:09 da manhã,
o gosto de bebida e cigarros,
sem polícia, sem amantes, andando pelas ruas,
este poema, esta cidade, fechando as portas,
sitiada, quase deserta,
melancólica sem lágrimas, envelhecendo sem piedade,
as montanhas rochosas,
o oceano como uma chama de alfazema,
uma lua destituída de grandeza,
uma música menor das janelas quebradas...

um poema é uma cidade, um poema é um país,
um poema é o mundo...
e agora eu ponho isso debaixo de uma redoma
para análise do editor maluco,
e a noite está em outro lugar
e senhoras grisalhas e abatidas fazem fila,
cão segue cão até o estuário,
os clarins trazem o cadafalso
enquanto homenzinhos anunciam as coisas
que não conseguem realizar.

(Charles Bukowski, Amor é Tudo que Dissemos que Não Era)
     

domingo, 9 de dezembro de 2012

HÖLDERLIN

O poeta está morto.
    Vida longa ao poeta!
...........................................

Baby, compra o jornal
E vem ver o sol
Ele continua a brilhar
Apesar de tanta barbaridade


Baby escuta o galo cantar
A aurora dos nossos tempos
Não é hora de chorar
Amanheceu o pensamento
O poeta está vivo
Com seus moinhos de vento
A impulsionar
A grande roda da história
Mas quem tem coragem de ouvir
Amanheceu o pensamento
Que vai mudar o mundo
Com seus moinhos de vento
Se você não pode ser forte
Seja pelo menos humana
Quando o papa e seu rebanho chegar
Não tenha pena
Todo mundo é parecido
Quando sente dor
Mas nú e só ao meio dia
Só quem está pronto pro amor
O poeta não morreu
Foi ao inferno e voltou
Conheceu os jardins do Éden
E nos contou
Mas quem tem coragem de ouvir
Amanheceu o pensamento
Que vai mudar o mundo
Com seus moinhos de vento
(Barão Vermelho, O Poeta Está Vivo)
 

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O DEUS-FILÓSOFO

...toda nossa época, seja pela lógica ou pela epistemologia, seja por Marx ou por Nietzsche, procura escapar de Hegel: e o que procurei dizer a pouco a propósito do discurso é bem infiel ao logos hegeliano.

Mas escapar realmente de Hegel supõe apreciar exatamente o quanto custa separar-se dele; supõe saber até onde Hegel, insidiosamente, talvez, aproximou-se de nós; supõe saber, naquilo que permite pensar contra Hegel, o que ainda é hegeliano; e medir em que nosso recurso contra ele é ainda, talvez, um ardil que ele nos opõe, ao termo do qual nos espera, imóvel e em outro lugar.

...pode-se ainda filosofar lá onde Hegel não é mais possível? Pode ainda existir uma filosofia que não seja hegeliana? O que é não-hegeliano em nosso pensamento é necessariamente não-filosófico? E o que é anti-filosófico é, forçosamente, não-hegeliano? (...) Queria fazer da presença de Hegel um esquema de experiência da modernidade (é possível pensar à maneira hegeliana as ciências, a história, a política e o sofrimento de cada dia?), e queria, inversamente, fazer de nossa modernidade o teste do hegelianismo e, assim, da filosofia. Para Hyppolite, a referência era o lugar de uma experiência, de um enfrentamento em que não tinha nunca a certeza de que a filosofia sairia vitoriosa.

...a filosofia não [é] ulterior ao conceito; ela não precisa dar continuidade ao edifício da abstração, deve sempre manter-se retirada, romper com as generalidades adquiridas e recolocar-se em contato com a não-filosofia; deve aproximar-se, o mais possível, não daquilo que a encerra, mas daquilo que a precede, do que ainda não despertou para a sua inquietação; deve retomar para pensá-las, não para reduzi-las, a singularidade da história, as racionalidades regionais da ciência, a profundidade da memória na consciência; aparece, assim, o tema de uma filosofia presente, inquieta, móvel em toda sua linha de contato com a não-filosofia, não existindo senão por ela, contudo, e revelando o sentido que essa não-filosofia tem para nós.

(Michel Foucault, A ordem do discurso)
  

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

O AMOR ETHÔS-DAÍMON



A insensatez de um bom conselho

A insensatez que você fez
Coração mais sem cuidado
Fez chorar de dor o seu amor
Um amor tão delicado

Ah, por que você foi fraco assim
Assim tão desalmado
Ah, meu coração, quem nunca amou
Não merece ser amado

Vai, meu coração, ouve a razão
Usa só sinceridade
Quem semeia vento, diz a razão
Colhe sempre tempestade

Vai, meu coração, pede perdão
Perdão apaixonado
Vai, porque quem não pede perdão
Não é nunca perdoado

..................................................................
   
Ouça um bom conselho
Eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa

Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado, quem espera nunca alcança

Venha, meu amigo
Deixe esse regaço
Brinque com meu fogo
Venha se queimar

Faça como eu digo
Faça como eu faço
Aja duas vezes

antes de pensar

Corro atrás do tempo
Vim de não sei onde
Devagar é que não se vai longe

Eu semeio o vento
Na minha cidade
Vou pra rua e bebo a tempestade

 

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

PRÓLOGO NO HADES

- E aí, garoto, há quanto tempo.
- Quem é você?
- Não me reconhece?
- Não ouviu a minha pergunta?
- Ouvi.
- E me responde com outra?
- Não me reconhece mesmo? Sou o seu Medo, garoto, não se lembra?
- Já não adianta mais ter Medo.
- Do que você está falando?
- Já não é mais a minha estória.
- Não compreendo, Aquiles.
- Fui superado! É isso.
- Superado?
- Ulisses. Tornei-me um ATO de sua estória.
- É possível uma coisa dessas?
- Por que acha que estou aqui, nessa profunda e precoce escuridão?
- Você morreu e a estória continua?
- Exato. Não demora muito e Ulisses deve estar chegando.
- Morto?
- Não. Apenas de visita. Só agora compreendo: o PRIMEIRO ATO chegou ao fim e seu ápice foi a minha morte.
- Como sabe que ele virá?   
- Não sei como sei. Apenas sei.
- Se estiver errado?
- Estarei errado.
- Não se importa?
- Sinto que ele virá porque tenho algo para lhe dar.
- O quê?
- A máscara da consciência trágica. Talvez ela o ajude a conquistar algo que não tenha a morte como exigência.  

Ulisses se aproxima de Aquiles e Medo, sem ser visto por ambos:

- Divagando, Aquiles?
- Reconhecendo o seu valor, Ulisses.
- E quem é esse ao seu lado?
- Meu velho Medo.
- Medo?
- Sim, de falhar na conquista da glória eterna. E agora não consigo imaginar nada mais estúpido do que essa morte prematura.

Medo, constrangido, se afasta dos dois.

- Não seja tão duro consigo mesmo – diz Ulisses.
- Como eu poderia saber que haveria mais de um ATO?! Tudo poderia ter sido diferente. Sinto um gosto amargo.
- Não se torture. Ninguém poderia saber que haveria mais de um ATO, a não ser os deuses. É assim que vivem homens como nós.
- Vivem? Estou morto, Ulisses!
- Lamento por isso.
- Ok – diz Aquiles ao se acalmar. – Tenho algo para lhe dar.

Aquiles olha Ulisses nos olhos e, inesperadamente, o esbofeteia. Um estalo ecoa, seco. Ulisses se surpreende, espantado e cheio de ira:

- ENLOUQUECEU!? 

Ulisses revida o golpe tentando acertar Aquiles, mas sua mão atravessa o espectro imaterial do fantasma.

- Agora a outra face – diz Aquiles, calmamente, antes de esbofetear o outro lado do rosto de Ulisses, provocando mais um estalido.

Ulisses, com as duas faces vermelhas e inchadas, tenta em vão acertar Aquiles novamente. Chocado com a situação, grita:

- Maldito! Por que está me batendo?! Como consegue me acertar?!
- Acalme-se, Ulisses. Essa é a máscara da consciência trágica.
- Consciência trágica? Não preciso de nada que venha de você, garoto mimado! Tenho a deusa Atenas olhando por mim.
- A proteção dela não basta. Haverá outras bofetadas do destino contra as quais não terá a chance de revidar.  
- Revidarei sempre que for ultrajado!
- Mesmo que não tenha como acertar o alvo? Revidará contra si mesmo?

Ulisses, espantado com tudo aquilo, se cala sem resposta. Afasta-se de Aquiles e se senta sobre um pedregulho. Após alguns instantes de silêncio, se acalma. Aquiles se aproxima dele vagarosamente, coloca uma das mãos sobre seu ombro e diz:  

- Creio que esteja na hora de você partir. Para onde pretende ir agora?
- Estou tentando voltar para casa. Tenho sofrido muitas tribulações. Às vezes tenho a impressão de estar vivendo dentro de um pesadelo sem fim.
- Me parece que os deuses realmente nunca se cansam de brincar com nossos destinos.
- Por isso, antes de partir preciso encontrar Tirésias, o adivinho. Ele me dará instruções para que eu consiga voltar.
- Terá ele o poder de tornar mais fácil o seu retorno?
- Não. Apenas indicará o caminho. Tudo o mais depende da vontade dos deuses. Não vejo a hora de acordar deste pesadelo!
- Mas lembre-se, Ulisses, uma parte desse pesadelo é real: a tragédia é uma bofetada sem revide possível. Neste caso, acordar seria o mesmo que dormir para sempre. 

Ulisses fita Aquiles nos olhos e se cala. Após alguns instantes, diz: 

- Ouvirá minhas risadas quando eu pisar novamente os pés em Ítaca. Então, serão elas também suas. Serão nossas!
- Que assim seja! - diz Aquiles, com um sutil sorriso no canto da boca.