sexta-feira, 27 de julho de 2012

MISTO QUENTE V

Fui até o banheiro, fiz um chumaço de papel higiênico e tentei estancar o sangramento. Tirei o papel das minhas costas e dei uma olhada. Estava empapado. Peguei mais papel e segurei ali por algum tempo. Então peguei o iodo. Passava o remédio nas costas, tentando alcançar o local do machucado. Era difícil. Finalmente consegui. De qualquer modo, quem já ouviu falar de costas infeccionadas? Ou o cara vive ou o cara morre. As costas eram uma coisa que os idiotas nunca pensavam em amputar.

Caminhei de volta para o quarto e me deitei na cama, puxando a coberta até o pescoço. Fiquei olhando para o teto enquanto falava com meus botões.

Tudo bem, Deus, digamos que Você esteja mesmo aí. Foi você que me colocou nesta. Você queria me testar. E que tal se eu O testasse? E que tal se eu dissesse que você não está aí? Você já me expôs ao teste supremo me dando esses pais e estas espinhas. Acho que passei no Seu teste. Sou mais durão do que Você. Se Você tivesse coragem de descer aqui, agora, eu cuspiria na Sua cara, se é que Você tem cara. E Você caga? O padre nunca respondeu a essa questão. Ele nos disse para não duvidarmos. Duvidar do quê? Acho que você já passou dos limites comigo, por isso, desafio-O a descer até aqui para que eu possa aplicar meu teste em Você!

Esperei. Nada. Esperei por Deus. Esperei infinitamente. Acho que peguei no sono.

Nunca dormia de costas. Mas quando acordei estava nessa posição e fiquei surpreso. Minhas pernas estavam dobradas e meus joelhos erguidos, dando às cobertas um aspecto de montanha. E quando olhei para essa montanha de cobertor, vi dois olhos me encarando. Eram olhos sombrios, negros, vazios... olhando para mim, encobertos por um capuz, um capuz negro e pontudo, como os usados pela Ku-Klux-Klan. Miravam-me fixamente, aqueles olhos negros e vazios, e não havia nada que eu pudesse fazer. Eu estava realmente apavorado. É Deus, pensei, mas Deus não podia ter aquela aparência.

Eu não podia parar de olhar. Não conseguia me mover. Aquilo simplesmente ficou me olhando a partir do monte que meus joelhos formavam no cobertor. Eu queria sair dali. Queria que aquilo desaparecesse. Seu aspecto era ameaçador e sombrio e eu podia sentir a sua força.

Pareceu ficar ali parado durante horas, só me encarando.

Então, se foi...

Fiquei sentado pensando no que tinha acontecido.

Não conseguia acreditar que aquilo pudesse ser Deus. Vestido daquela maneira.

Devia ser um truque vagabundo. Havia sido uma ilusão, obviamente.

Fiquei pensando no assunto por uns dez ou quinze minutos, então me ergui e fui pegar a pequena caixa marrom que minha avó me dera muitos anos atrás. Dentro dela havia pequenos rolos de papel com citações da Bíblia. Cada pequeno rolo ficava dentre de um compartimento próprio. Era esperado que o sujeito fizesse uma pergunta e então puxasse um dos rolinhos que supostamente conteria a resposta desejada àquela questão. Eu já tinha tentado utilizar a caixinha anteriormente, e não me tinha sido de nenhuma utilidade. Agora, tentei novamente. Perguntei à caixa marrom:

- Qual o significado do que aconteceu? O que eram aqueles olhos?

Puxei um dos papeizinhos e o desenrolei. Era muito pequeno e difícil de manusear. Ao conseguir desenrolá-lo, li:

DEUS O ABANDONOU.

Enrolei o papelzinho e o pus de volta em seu compartimento na caixa marrom. Não podia acreditar naquilo. Voltei para cama e fiquei pensando. Era simples demais, cru demais. Não dava para acreditar. Pensei em me masturbar para voltar à realidade. Continuava sem poder acreditar. Fiquei de pé e comecei a desenrolar todos os papeizinhos da caixa marrom. Procurava por aquele que dizia DEUS O ABANDONOU. Desenrolei todos. Nenhum deles trazia aquela mensagem. Li um por um e nenhum dizia aquilo. Enrolei todos novamente e os coloquei em seus compartimentos dentro da pequena caixa marrom.

(Charles Bukowski)
     

quarta-feira, 25 de julho de 2012

MISTO QUENTE IV

Tive sorte no dia seguinte. Chamaram meu nome. Era um médico diferente. Tirei minha roupa. Ele voltou para mim uma luz quente e branca e me examinou. Eu estava sentado na beira da cama.

- Hummm, hmmmm – ele disse –, uh huh...

Fiquei sentado ali.

- Há quanto tempo você tem isso?
- Há dois anos. Vem piorando cada vez mais.
- Ah-hã.

Continuou examinando.

- Agora, deite-se com a barriga para baixo. Volto logo.

Alguns momentos passaram e subitamente a sala estava cheia de pessoas. Eram todos médicos. Pelo menos pareciam e falavam como médicos. De onde eles tinham vindo? Eu tinha pensado que quase não havia médicos no Hospital Geral do Condado de Los Angeles.

- Acne vulgaris. O pior caso que já vi em todos os meus anos de prática!
- Fantástico!
- Incrível!
- Olhem só o rosto!
- O pescoço!
- Acabei de examinar uma garota com acne vulgaris. Suas costas estavam cobertas. Ela chorava. Sabem o que me disse: “Como vou conseguir arranjar um homem? Minhas costas ficarão marcadas para sempre. Quero me matar!”. E agora veja só esse camarada! Se ela pudesse vê-lo, saberia que realmente não tem nada do que reclamar!

Seu puto imbecil, pensei, não percebe que posso ouvir o que você está dizendo? Como será que um homem chega a médico? Será que eles aceitam qualquer um?

- Ele está dormindo?
- Por quê?
- Parece bastante tranqüilo.
- Não, não acho que ele esteja dormindo. Você está dormindo, meu garoto?
- Sim.

Continuaram movendo a luz quente e branca sobre diversas partes do meu corpo.

- Vire-se.
- Olhem, há lesões dentro da boca!
- Bem, como vamos tratar isso?
- A agulha elétrica, acho...
- Sim, claro, a agulha elétrica.
- Sim, a agulha.

Estava decidido.

(...)

Voltou a me cravar a agulha. Então a retirou e cravou numa terceira espinha. Dois outros homens haviam entrado e estavam parados, assistindo a tudo. Provavelmente eram médicos. Mais uma agulhada.

- Nunca vi ninguém agüentar as agulhadas dessa maneira – disse um dos homens.
- Ele não demonstra nenhuma dor – disse o outro.
- Por que vocês não vão beliscar o rabo de alguma enfermeira, rapazes? – perguntei a eles.
- Escute, filho, você não pode falar com a gente dessa maneira!

A agulha me perfurou novamente. Não respondi.

(Charles Bukowisk)
                            

terça-feira, 24 de julho de 2012

MISTO QUENTE III

Um dia eu estava por ali parado, esperando como de costume, de mal com o pessoal, mas a fim de fazer as pazes com eles, quando Gene se aproximou de mim correndo:

- Ei, Henry, venha cá!
- O que é?
- VENHA DUMA VEZ!

Gene começou a correr e fui atrás dele. Seguimos até o quintal dos Gibson. Os Gibson tinham um muro alto de tijolo ao redor de todo o pátio dos fundos.

- VEJA! ELE ESTÁ COM O GATO ENCURRALADO! ELE VAI MATÁ-LO!

Havia um gatinho branco com as costas voltadas para um dos cantos do muro. Não podia subir pelos tijolos nem fugir em qualquer outra direção. Suas costas estavam arqueadas e ele bufava, as garras prontas. Era, no entanto, pequeno demais para dar conta do buldogue de Chuck, Barney, que rosnava e se aproximava mais e mais. Tive a impressão de que aquele gato havia sido colocado ali pelos garotos e de que somente depois o buldogue fora levado até ali. Sentia isso intensamente pelo modo como Chuck e Eddie e Gene acompanhavam a cena: o aspecto deles os incriminava.

- Caras, vocês armaram essa – eu disse.
- Não – rebateu Chuck –, a culpa é do gato. Ele veio até aqui. Deixe que ele se vire agora para escapar.
- Odeio vocês, seus desgraçados – eu disse.
- Barney vai matar o gato – disse Gene.
- Barney vai fazer picadinho do gato – disse Eddie – Ele está com medo das unhas do gato, mas quando avançar tudo estará encerado.

Barney era um buldogue grande e marrom com as bochechas flácidas e cheias de baba. Ele era gordo e meio abobalhado e tinha olhos castanhos inexpressivos. Rosnava constantemente e ia avançando devagar, os pêlos do pescoço e das costas eriçados. Eu sentia vontade de dar um chute no seu rabo estúpido, mas percebi que ele me arrancaria a perna fora. O cão estava completamente tomado por um espírito assassino. O gato branco sequer tinha terminado de crescer. O bichinho soltava um silvo agudo e esperava, comprimido contra o muro, uma criatura belíssima, tão limpa.

O cachorro avançou lentamente. Por que esses caras precisavam disso? Não era uma questão de coragem, era apenas um jogo sujo. Onde estavam os adultos? Onde estavam as autoridades? Para me acusar de alguma coisa estavam sempre por perto. Onde tinham se enfiado agora?

Pensei em intervir na cena, apanhar o gato e sair correndo, mas eu não tinha forças. Tinha medo que o buldogue me atacasse. A consciência de que me faltava coragem para fazer o que era necessário fez com que me sentisse péssimo. Comecei a ficar enjoado. Estava fraco. Eu não queria que aquilo acontecesse, ainda que eu não conseguisse encontrar nenhuma maneira de evitar o massacre.

- Chuck – eu disse – deixe o gato ir, por favor. Chame o seu cachorro.

Chuck não respondeu. Continuou apenas observando. Então disse:

- Vai, Barney, pega ele! Pegue o gato!

Barney avançou e de súbito o gato deu um salto. O bichano se transformara numa furiosa mancha branca, toda silvos, garras e dentes. Barney recuou e o gato voltou novamente para o muro.

- Pegue ele, Barney – disse Chuck novamente.
- Cale a boca, maldito – disse a ele.
- Não fale comigo desse jeito – retrucou.

Barney começava a avançar novamente.

- Caras, vocês armaram tudo isso aqui – eu disse.

Ouvi um leve ruído atrás de nós e voltei a cabeça. Vi o velho sr. Gibson a nos observar de trás da janela do seu quarto. Ele também queria que o gato fosse morto, assim como os garotos. Por quê?

O velho sr. Gibson era nosso carteiro. Usava dentadura. Tinha uma esposa que passava o tempo inteiro em casa. Ela saia apenas para botar o lixo na rua. A sra. Gibson sempre usava uma rede sobre os cabelos e sempre trajava uma camisola, roupão de banho e chinelos.

Então apareceu a sra. Gibson, vestida como de costume, e se postou ao lado do marido, esperando pela carnificina. O sr. Gibson era um dos poucos homens da vizinhança que tinha um emprego, mas ainda assim ele precisava ver o gato ser morto. Gibson era como Chuck, Eddie e Gene.

Havia muitos deles.

O buldogue se aproximou. Eu não podia ver aquele crime. Senti uma vergonha profunda por abandonar o gato à própria sorte. Havia sempre a chance de que o bichano pudesse escapar, mas eu sabia que os garotos não deixariam isso acontecer. Aquele gato não enfrentava apenas o buldogue, ele enfrentava a Humanidade inteira.

Dei meia volta e me afastei, para fora do quintal, passando pela entrada do carro e chegando à calçada. Caminhei em direção ao local onde eu morava e lá, no pátio em frente à sua casa, meu pai estava plantado, me esperando.

- Onde você estava? – ele perguntou.

Não respondi.

- Já pra dentro – ele disse – E pare de parecer tão infeliz ou lhe darei algo para que você realmente sinta o que é infelicidade!

(Charle Bukowski)
           

segunda-feira, 23 de julho de 2012

MISTO QUENTE II

Entreguei meu ensaio na segunda-feira. Na terça, a sra. Fretag se dirigiu à classe:

– Li os ensaios de todos vocês sobre a visita de nosso ilustríssimo presidente a Los Angeles. Eu estava lá. Alguns de vocês, pelo que pude notar, não puderam comparecer ao evento por uma ou outra razão. Para aqueles entre vocês que não puderam estar lá, gostaria de ler o ensaio escrito por Henry Chinaski.

Um terrível silêncio se abateu sobre a turma. Eu era de longe o aluno mais impopular da classe. Era como se todos eles tivessem levado uma facada no coração.

– Este é um texto muito criativo – disse a sra. Fretag e começou a ler meu ensaio.

As palavras me soavam bem. Todos escutavam. Minhas palavras enchiam a sala, corriam de um lado a outro pelo quadro negro, ricocheteavam no teto e cobriam os sapatos da sra. Fretag, se amontoando no chão. Algumas das garotas mais lindas da classe começaram a me lançar olhares furtivos. Os caras durões estavam putos da cara. Seus ensaios não valiam merda nenhuma. Eu bebia de minhas próprias palavras como se fosse um homem sedento. Comecei, inclusive, a acreditar que elas representassem a verdade. Vi Juan sentado ali como se eu lhe tivesse esmurrado a cara. Estiquei as pernas e me recostei na cadeira. Logo, porém, estava tudo terminado. 

– Com essa grande redação – disse a sra. Fretag –, encerro a aula.

Todos se levantaram e começaram a guardar seus materiais.  

– Você não, Henry.

Sentei-me na cadeira, e a sra. Fretag ficou ali, me encarando. Então disse:

– Henry, você estava lá?

Tentei encontrar uma resposta. Nada me ocorreu. Eu disse:

– Não, eu não estava lá.

Ela sorriu.

– Isto faz com que seu ensaio seja ainda mais notável.
– Sim, madame...
– Você já pode ir, Henry.

Levantei-me e deixei a sala. Fui para casa. Então era isso que eles queriam: mentiras. Mentiras maravilhosas. Era disso que precisavam. As pessoas eram idiotas. Será fácil para mim. Olhei em volta. Juan e seu comparsa não estavam me seguindo. As coisas estavam melhorando.

(Charles Bukowski)
        

sexta-feira, 20 de julho de 2012

MISTO QUENTE I

No dia seguinte, durante a aula, passei o tempo todo com isso na cabeça. Olhava para as garotinhas e me imaginava fazendo com elas. Faria com todas elas e teríamos bebês, eu encheria o mundo com caras como eu, grandes jogadores de beisebol, marcadores de home runs. Nauqele dia, logo depois da aula terminar, a professora, sra. Westphal, disse:

– Henry, você poderia ficar mais um pouco?

A sineta tocou, e as outras crianças foram embora. Fiquei sentado e esperei. A sra. Westphal corrigia uns papéis. Pensei: talvez ela queira fazer comigo. Me imaginei erguendo o vestido dela e olhando para o seu buraco.

– Tudo bem, sra. Westphal, estou pronto.

Ela ergueu os olhos das folhas.

– Está certo, Henry. Em primeiro lugar, apague todos os quadros negros. Depois leve os apagadores até a rua e tire o pó deles.

Fiz o que mandou, então voltei a sentar na minha classe. A sra. Westphal continuava lá, corrigindo os papéis. Ela estava com um vestido azul apertado, grandes argolas douradas nas orelhas, tinha um nariz pequeno e usava óculos sem armação. Esperei e esperei. Então, eu disse:

– Sra. Westphal, por que a senhora me manteve aqui depois da aula?

Ergueu o rosto e me encarou. Seus olhos eram verdes e profundos.

– Mantive-o até mais tarde porque às vezes você é mau.
– Ah, é? – sorri.

A sra. Westphal me olhou. Tirou seus óculos e continuou me encarando. Suas pernas estavam ocultas pela mesa. Eu não podia ver seu vestido.

– Você estava muito desatento hoje, Henry.
– É?
– E não fale comigo desse jeito. Você está se dirigindo a uma dama!
– Oh, claro...
– Não seja insolente comigo!
– Como a senhora quiser.

Ela se levantou e saiu detrás da sua mesa. Caminhou por entre as classes e sentou-se sobre a mesa à minha frente. Tinha pernas maravilhosas, longas, cobertas por meias de seda. Sorriu para mim, esticou uma das mãos e tocou num dos meus pulsos.

– Seus pais não lhe dão muito amor, não é verdade?
– Não preciso desse tipo de coisa – respondi.
– Henry, todos precisam ser amados.
– Não preciso de nada.
– Pobre garoto.

Ficou de pé, veio até minha classe e tomou devagar minha cabeça entre suas mãos. Curvou-se e me estreitou contra os seios. Estiquei-me e enlacei suas pernas.

– Henry, você precisa parar de brigar com todo mundo! Queremos ajudá-lo.

Agarrei as pernas da sra. Westphal com mais força.

– Tudo bem – eu disse –, vamos trepar!
– O que você disse?
– Eu disse vamos trepar!

Olhou-me por um longo tempo.

– Henry, nunca vou dizer para ninguém o que você me disse, nem para o diretor, nem para os seus pais, para ninguém. Mas eu nunca mais, nunca mais quero que você me diga isso outra vez, entende?
– Entendo.
– Tudo bem. Você pode ir para casa agora.

Levantei e caminhei em direção à porta. Quando a abri, a sra. Westphal disse:

– Boa tarde, Henry.
– Boa tarde, sra. Westphal.

Segui pela rua pensando no acontecido. Senti que ela estava a fim de trepar, mas tinha medo por eu ser jovem demais para ela, medo que meus pais e o diretor pudessem descobrir. Tinha sido excitante ficar sozinho com ela na sala vazia. Essa coisa de trepar era bacana. Dava às pessoas mais coisas em que pensar.

(Charles Bukowski)
     

sábado, 30 de junho de 2012

LUA GREGA


Apolo: O sol nunca se põe. Essa é a verdade.
Dionísio: Mas também nunca ilumina os dois lados da Terra de uma só vez.
Apolo: Dois lados?
Dionísio: Sim!
Apolo: Já está bêbado a esta hora, jovem deus?
Dionísio: Sempre, meu caro e orgulhoso Apolo. Você sabe muito bem que o vinho é o meu sangue.
Apolo: Sei. Mas, então, me diga: sendo redonda, como poderia a Terra possuir dois lados?
Dionísio: Ah, ah, ah! Você sabe muito bem ser um belo de um sofista quando quer! Andou provando do meu vinho, foi?
Apolo: Ora, Dionísio, me respeite! Como poderia eu, bêbado, seguir na tarefa de iluminar e ordenar o mundo?
Dionísio: Que desse jeito tal tarefa seria muito mais divertida, ah, isso seria!
Apolo: Basta, Dionísio! – Oh, Zeus, dai-me paciência com este teu fruto semeado no leito da infortunada Sêmele – Não me agrada ser chamado de sofista, jovem insolente! Ao invés de me ofender, responda a pergunta que te fiz: como pode a Terra ter dois lados sendo ela redonda?
Dionísio: Apolo, guarde a tua ironia dialética para os filhos de Platão, o ardente amante do cadáver de Sócrates. Vocês, juntos, como bem sabe, hão de ordenar todo o mundo... de pernas pro ar! Ah, ah, ah, ah! Mas vocês sabem, também, que não me terão como aliado!
Apolo: Você vai responder o que te perguntei, ou vai ficar bancando a criança e me fará a desfeita de me deixar sem resposta?
Dionísio: Ora, Apolo, você sabe muito bem que é por sua causa que a Terra, redonda e azul, tem dois lados. O claro e o escuro. A luz e a escuridão. O dia e a noite. A vergonha e a nudez. A cultura e a natureza. A razão e o instinto. A ordem e a desordem... Quer que eu continue?
Apolo: Ainda assim, o sol nunca se põe. Insisto!
Dionísio: Sei que você não tem escolha, prezado irmão. Mesmo assim, considero você ainda mais belo quando, à noite, não passa de uma sutil lembrança refletida pela lua. Pois mesmo ela, que ilumina e cresce por amor a você, também morre e rejuvenesce por amor a mim: eis a lua nova!
Apolo: Não me fale dessa ingrata! Reflete minha luz dizendo me amar, mas sempre me abandona para depois voltar, como se nada tivesse acontecido.
Dionísio: Pois é justamente quando te abandona que ela mais me ama. Mas ao contrário de você, não me sinto abandonado quando, cheia e redonda, ela tanto te ama e presta homenagens. Eis o meu único mandamento: o eterno retorno.
Apolo: Ora, se ela tanto me ama, porque me abandona?
Dionísio: Apolo, mesmo a lua se cansa de refletir.
Apolo: (após instantes de silêncio pensativo) Será que sobrou um pouco do teu vinho para me oferecer?
Dionísio: Ah, ah, ah, ah! É claro, meu irmão! Dancemos! Evoé!!
Coro: EVOÉ!!!
   


sexta-feira, 29 de junho de 2012

O CALCANHAR DA HUMANIDADE

   Apolo, o deus arqueiro,
Lançou duas flechas pelos ares.
     Uma, na direção do sonho,
A outra, da realidade.
     Velozes, zuniram melodias
E distanciaram-se do divino arco.
    
     Da primeira, feita de sonho,
Seu alvo era o velho Zenão.
     Avançou, ligeira e implacável,
Atravessou infinitas imagens,
     Transpôs os mais largos hiatos,
E ao destino, até hoje, não chegou.
    
     A outra, feita de realidade,
Percorreu lentos séculos de vida.
     Aproximou-se da voz mais antiga
E cravou no calcanhar da humanidade.
     O pé, ferido e inchado,
Transpôs o mais curto dos hiatos. 
        

quarta-feira, 27 de junho de 2012

A PONTE

Piora na medida em que me afasto – pensou Ed Kynon. Quanto pior, eis o declínio, eis a ponte sendo atravessada. Ponte essa existente apenas na medida de cada passo dado. A cada passo, tanto pior, tanto mais luz e calor e azul – berrou seu coração, sentindo-se degradado.  Mas parar é ver o céu abaixo – retomou Ed seus pensamentos. Não por se estar elevado, mas por se estar de cabeça para baixo. Parado, o céu é o abismo terrível e indiferente. Voltar seria ir ter com a morte. Morramos! – urrou seu coração.

Ed saiu do grande Mausoléu. Lá ganhava a vida diariamente como coveiro. Desceu o indefectível jardim suspenso. Como sempre, desceu em sua própria companhia, feito uma árvore ambulante que carrega as próprias raízes. Robustas e longas. Habituadas a sugar a seiva de seu mítico Hades íntimo. Como sempre, Ed só queria voltar para casa. Mas quem retorna do Hades não pode olhar para trás, diziam os antigos.

No meio do caminho, entretanto, havia a travessia. Não da ponte, ainda. Mas da grande avenida. Grande o suficiente para abrigar 20 mil almas que juntas não eram uma. Um grande simulacro de rio é o que eram de fato. Mas Ed as amava. Todas elas e o seu rio e o seu doce simulacro – que não eram elas, realmente, mas o seu obstinado coração.

Ed parou. Da margem do grande rio das almas, observou o movimento continuo. Timidamente, começou a sonhar. Olhava e sorria discretamente. Considerava tal discrição o grande estratagema contra a truculência do amor. Mas a margem também é rio. Amá-lo de lá é o mesmo que mergulhar sem saber nadar. Ed, apaixonado, ousou se julgar seguro. Acreditando-se terno e ingênuo, era a mais maliciosa das criaturas vivas.

Ed desviou-se do seu rumo. Começou a caminhar pela margem, hipnotizado pelo reflexo do rio. O amor de Ed era aquele rio. Um rio de águas paradas. Um Absurdo. Nele se via vinte mil vezes. Via justamente a parte de si oculta quando diante do espelho. Como poderia, curioso, se cegar àquilo? – pensava enquanto olhava mais e mais. Olhando, Ed estava completamente cego.

As águas lançaram o seu canto. As cordas do coração de Ed vibraram. A melodia: sua intensa felicidade e mansa agonia. De dentro do rio outra espécie de corda fora lançada à margem. A corda do equilibrista. O rio o convidava a se equilibrar por sobre suas águas. Chegue mais perto – disse o rio. Nós também te amamos mais de perto. Mais perto. Mais perto. Ed, então, se equilibrou. Amigo do vento e do perigo, sobre um monociclo e rodopiando três massas, Ed se equilibrou. Ed era uma queda livre.

Almas por todos os lados. Era Penélope a quem procurava, no turbilhão. Todos eram Penélopes. Homens e mulheres. Vinte mil cisões fizeram Ed em pedaços. Mas Penélope não o reconhecia. O canto desafinava. A corda se rompia. O amor dava braçadas. Mais e mais Ed procurava. O rio não era a sua casa. Como poderia achar Penélope?! Ed era Penélope - à espera do retorno de Ed. Ed queria voltar. Mas voltar era ir ter com a morte, os antigos diziam. De cabeça para baixo, a cachoeira subia. Elevando-se, Ed caía.

Ed agarrou-se a uma pedra. Essa pedra era ele mesmo. Remando, Ed retornou à margem. Triste por ter falhado. Penélope, contudo, celebrava a sua vida. Cambaleante e recuperando-se, Ed ignorava ter quase morrido. Uma morte inacabada. Semelhante à vida inacabada. Algo ocorrera – pensou por um instante. Mas agora ainda é agora, então Ed caminha. Toma o rumo de casa. Mas a casa era todas direções.

Piora na medida em que me afasto – pensou Ed Kynon. Quanto pior, eis o declínio, eis a ponte sendo atravessada. Ponte essa existente apenas na medida de cada passo dado. A cada passo, tanto pior, tanto mais luz e calor e azul – berrou seu coração, sentindo-se degradado. Ed, porém, não deu ouvidos. Lembrou-se da ponte sempre inacabada. Ela o levava a sua casa inacabada. Ed provou o sangue dos seus joelhos ralados. O sangue tinha gosto de tinta. Seu corpo, o papel. Enfim, Ed soube o que fazer.

domingo, 24 de junho de 2012

LEPTOSPIROSE

A febre do rato
roeu a roupa do rei.
Mas o rei está nu!
Não para você
Sábio demais,
Supérfluo demais,
Limpo demais,
Desnecessário demais,
Virtuoso demais para ser:
pau, peito, cu, boceta,
o desdentado que mastiga,
o trovador que excreta.

A febre do rato
rói o pudor de quem vê.
  

SER OU SER

         Lírico, vindo do Hades.
Dramático, após o almoço.
         Épico nas entrelinhas.

Assim diz Apolo
         enquanto, à noite,
uiva Dionísio.
  

DITIRAMBO À ZARATUSTRA


Enfim, encontro-te na solidão anil.
Anil de sonhos que brincam com verdades.

E como são verdadeiros!
E como brincam, zombeteiros!
Fazendo do poeta cego
Amante na luz e sombra.

Há cor, por certo, há.
De cor, o coração.
Mas também o anil de Posseidon.

Mais ao mar do que ao céu,
Meu canto soa como a vaga indiferente.
Viaja desertos em silêncio,
No raso, dobra-se sobre si mesmo,
Rebenta em branca espuma e êxtase
Para salgar o solo hostil
Com o mais intenso azul anil.

Enfim, encontro-te na solidão anil
Anil de sonhos, profundo anil.
 

quinta-feira, 10 de maio de 2012

FIQUE COM A CERVEJA!

Leitura de Bukowski
Ele lê os seus poemas
Diógenes que enxerga o óbvio!
Conversa com a multidão
Estudantes mais que bêbados
apaixonados pela juventude
Personagens de Bukowski
Bêbado Henry Chinaski
Bêbada multidão que ri
E ouve a leitura de Bukowski
Em algum momento ele me disse
- Fique com a cerveja!
Depois de mais um gole
- Por cerveja entenda: ESCREVA!
               

quarta-feira, 9 de maio de 2012

NAÏF


    Notas soaram.
Palavras rimaram
    (ou não).
Desagregou-me inteiro
    o ritmo hipnótico
da leitura.

    Julguei ser músico,
poeta,
    profeta
da minha própria ignorância
    que nunca finda
ou falha.

    Ingenuidade?
Sorriso primário.
    Emoção que busca
da razão a nascente e o calor
    originário.

Originário?
   

domingo, 18 de março de 2012

SÁBADO, MEIO DIA

(...)
Voltei às minhas reflexões de ontem. Estava inteiramente frio: era-me indiferente que não houvesse aventuras. Simplesmente estava curioso em saber se não poderia haver.

Eis o que pensei: para que o mais banal dos acontecimentos se torne uma aventura, é preciso e basta que nos ponhamos a narrá-lo. É isso que ilude as pessoas: um homem é sempre um narrador de histórias, vive rodeado por suas histórias e pelas histórias dos outros, vê tudo o que lhe acontece através delas; e procura viver a sua vida como se a narrasse.

Mas é preciso escolher: viver ou narrar. Por exemplo, quando estava em Hamburgo, com aquela tal de Erna que tinha medo de mim e em quem eu não confiava, levava uma existência estravagante. Mas eu estava dentro dessa existência, não pensava nisso. E depois, numa noite, num café em San Pauli, Erna me deixou um momento para ir ao toalete. Fiquei sozinho, havia um gramofone tocando "Blue Sky". comecei a narrar para mim mesmo o que ocorrera depois do meu desembarque. Disse-me:

"Na terceira noite, ao entrar num dancing chamado Grotte Bleu, minha atenção foi despertado por uma mulher grandalhona, meio bêbada. E é essa mulher que estou aguardando nesse momento, a ouvir Blue Sky, e que vai voltar a se sentar à minha direita e me enlaçar o pescoço com seus braços." Senti então com violência que vivia uma aventura. Mas Erna retornou, se sentou ao meu lado, me enlaçou o pescoço com seus braços e detestei-a sem saber bem por quê. Agora compreendo: é porque era precisorecomeçar a viver e a impressão de aventura acabava de se dissipar.

Quando se vive, nada acontece. Os cenários mudam, as pessoas entram e saem, eis tudo. Nunca há começos. os dias se sucedem aos dias, sem rima nem razão: é uma soma monótona e interminável. De vez em quando se procede a um total parcial, dizendo: faz três anos que viajo, três anos que estou em Bouville. Também não há fim, nunca deixamos uma mulher, um amigo, uma cidade de uma só vez. E também tudo se parece: Xangai, Moscou, Argel, ao fim de 15 dias é tudo igual. Por alguns momentos - raramente - avaliamos a situação, percebemos que nos envolvemos com uma mulher, que nos metemos numa confusão. Por um átimo.

Depois disso o desfile recomeça, voltamos a fazer as contas das horas e dos dias. Segunda, terça, quarta. Abril, maio, junho. 1924, 1925, 1926.

Viver é isso. Mas quando se narra a vida, tudo muda; simplesmente é uma mudança que ninguém nota: a prova é que se fala de histórias verdadeiras. Como se fosse possível haver histórias verdadeiras; os acontecimentos ocorrem em um sentido e nós os narramos em sentido inverso. Parecemos começar do início: "Era uma bela noite de outono em 1922. Eu era escrevente de tabelião em Marommes." E na verdade foi pelo fim que começamos. Ele está ali, invisível e presente, é ele que confere a essas poucas palavras a pompa e o valor de um começo. "Estava passeando, saira do vilarejo sem perceber, pensava em meus problemas de dinheiro." Essas frases, tomadas pelo que simplesmente são, significam que o sujeito estava absorto, deprimido, a cem léguas de uma aventura, exatamente nesse tipo de estado de espírito em que se deixam passar os acontecimentos sem vê-los. mas o fim, que transforma tudo, já está presente. Para nós o sujeito já é o herói da história. Sua depressão, seus problemas de dinheiro são bem mais preciosos do que os nossos: doura-os a luz das paixões futuras.

E o relato prossegue às avessas: os instantes deixaram de se empilhar uns sobre os outros ao acaso, foram abocanhados pelo fim da história que os atrai, e cada um deles atrai por sua vez o instante que o precede: "Era noite, arua estava deserta." As frases são lançadas negligentemente, parecem supérfluas; mas não caimos no logro e a deixamos de lado: é uma informação cujo valor compreenderemos depois. e temos a impressão de que o herói viveu todos os detalhes dessa noite como anunciações, como promessas, ou até mesmo de que vivia somente aqueles que eram promessas, cego e surdo para tudo que não anunciava a aventura. esquecemos que o futuro ainda não estava ali; o sujeito passeava numa noite sem presságios, que lhe proporcionava de cambulhada suas riquezas monótonas, e ele não escolhia.

Quis que os momentos de minha vida tivessem uma sequência e uma ordem como os de uma vida que recordamos. o mesmo, ou quase, que tentar capturar o tempo.

(Jean-Paul Sartre, A Náusea)
        

PREFÁCIO DE PERGUNTE AO PÓ, POR CHARLES BUKOWSKI

Eu era um jovem, passando fome e bebendo e tentando ser um escritor, Fiz a maior parte das minhas leituras na Biblioteca Pública de Los Angeles, e nada do que eu li tinha a ver comigo ou com as ruas ou com as pessoas em minha volta. Parecia que todo mundo estava brincando de jogar com as palavras, que aqueles que não diziam quase nada eram considerados escritores excelentes. Seus escritos eram uma mistura de sutileza, artesanato e forma, e era lido e era ensinado e era ingerido e acabou. Era um esquema confortável, uma Cultura da Palavra, muito malandra e cheia de nove-horas.

Era preciso voltar aos escritores da Rússia pré-revolucionária para achar alguma ginga, alguma paixão. Havia exceções mas essas exceções eram tão poucas que a gente as lia logo, e lá estava você olhando para filas e filas de livros chatos pra caralho.

Com séculos para olhar para trás, com todas as suas vantagens, os modernos não davam pra saída.

Tirei livro após livro das estantes. Por que é que alguém não diz alguma coisa? Por que é que ninguém sai gritando?

Tentei outros livros na biblioteca. A seção sobre religião era um pé no saco. Fui pra filosofia. Encontrei alguns alemães amargurados que me animaram um tempo, mas não passou disso. Tentei matemática, mas matemática superior era igualzinho religião: não saquei bulhufas. O que EU precisava parecia não existir em lugar algum.

Tentei geologia e a achei curiosa mas, finalmente, insubstancial.

Achei alguns livros sobre cirurgia e gostei dos livros sobre cirurgia: as palavras eram novas e as ilustrações maravilhosas. Gostei particularmente e memorizei a operação no mesocólon.

Daí eu abandonei a cirurgia e voltei para a sala dos romancistas e contistas (Quando eu tinha bastante vinho barato pra beber eu nunca ia a biblioteca. Uma biblioteca era um bom lugar para ir quando você não tinha nada pra beber nem pra comer, e a dona da pensão estava atrás de você e do dinheiro do aluguel. Na biblioteca, pelo menos, você tinha uma privada que preste). Vi uma porção de vagabundos lá, a maior parte dormindo em cima dos livros.

Eu ficava andando pelo salão, tirando os livros das estantes, lendo umas linhas, algumas páginas, depois pondo de volta.
Então um dia peguei um livro, abri e lá estava. Parei por um momento, lendo. Então como alguém que achou ouro no lixo, levei o livro para uma mesa. As linhas rolavam fácil pela página, havia uma corrente. Cada linha tinha sua própria energia e era seguida por uma outra que nem ela. A própria substância de cada linha dava uma forma à página, a sensação de alguma coisa esculpida ali. E, aqui, afinal, estava um homem que não tinha medo da emoção. O humor e a dor estavam misturados numa esplêndida simplicidade. Começar aquele livro foi um selvagem e enorme milagre pra mim.

Eu tinha um cartão da biblioteca. Tirei o livro, levei-o para meu quarto, me joguei na cama e li, e eu sabia muito antes de terminar que aqui estava um homem que tinha desenvolvido um jeito diferente de escrever. O livro era Pergunte ao Pó; e o autor, John Fante.

Ele ia ser uma influência permanente sobre o meu modo de escrever.

Terminei Pergunte ao Pó e procurei outros livros de Fante na biblioteca.

Achei dois: Dago Red e Espere Até a Primavera, Bandini. Eram da mesma categoria, escritos com as tripas e com o coração.
Sim, Fante teve um puta efeito sobre mim. Logo depois de ter lido seus livros, comecei a viver com uma mulher. Ela bebia mais que eu e tivemos umas brigas brabas e então eu gritava para ela:

- Não me chame de filho da puta! Eu sou Bandini, Arturo Bandini!

Fante era meu deus e eu sabia que os deuses devem ser deixados em paz, não se bate na porta deles. Mesmo assim eu gostaria de saber onde ele tinha vivido em Angel’s Flight e imaginei que ele ainda podia estar vivendo lá. Quase todo dia eu passeava por lá e pensava: foi por essa janela que Camila passou? Essa é a porta do hotel? E essa a portaria? Nunca cheguei a saber.

39 anos depois, reli Pergunte ao Pó. Isto é, reli este ano e lá estava ele inteiro, como as outras obras de Fante, mas esta é a minha predileta porque foi minha primeira descoberta da mágica.

Há outros livros além de Dago Red e Espere Até a Primavera, Bandini. São Cheio de Vida e A Irmandade da Uva. E, atualmente,
Fante tem um romance em obras, uma obra romance em processo, uma obra em obras, Um Sonho de Bunker Hill.

Através de outras circunstâncias, finalmente encontrei o autor este ano. Tem muito mais coisa na história de John Fante. É a historia de uma sorte terrível, e um terrível destino, e de uma coragem rara e natural.

Algum dia vai ser contada mas eu sinto que ele não quer que eu a conte aqui. Mas quero dizer que o jeito de suas palavras e o jeito do seu jeito são ainda os mesmos: fortes e bons e quentes.

Chega. Agora esse livro é de você.