quinta-feira, 21 de julho de 2011

JOGADA DE MESTRE

O Tempo é O Jogo,
      o tabuleiro,
    a recompensa.

Vindo à luz,
      estás jogando:
duras mortes,
      permanêcias,
saltos trilhos,
      mil engodos,
blefe, apostas,
      convivência.

O Tempo é o Jogo.   
      Só o Tempo
   dá ciência.
           

domingo, 17 de julho de 2011

CARTA ABERTA A JOHN ASHBERY

"A memória é uma ilha de edição
(...)
Esgotado o eu, resta o espanto do mundo não ser
levado junto de roldão.
(...)
A vida não é uma tela e jamais adquire
o significado estrito
que se deseja imprimir nela.
Tampouco é uma estória em que cada minúcia
encerra uma moral.
Ela é recheada de locais de desova, presuntos,
liquidações, queimas de arquivos,
divisões de capturas,
apagamentos de trechos, sumiços de originais,
grupos de extermínios e fotogramas estourados."
(...)

(Waly Salomão)

sexta-feira, 15 de julho de 2011

DIÁSPORA















Então fala-me do amor
Esse que se entrega de graça
Esse que rima com dor e flor

Brotado de terra baldia
Banhado pela noite vagante
E pelo sol do meio dia
Da onde veio, senão do lugar pra onde foi?

Diz-me de peito aberto,
- Se é que as flores realmente se abrem -,
do mistério do que veio antes ou depois

Quanto custa o quanto cobra?
Quanto deseja e se acaso sobra
Uma sombra de calmaria de dia de verão

Diz pra onde vão
Os dias dados pela alegria.
Pra correnteza em hemorragia?
Ou pro zelo perdido de quem lutou,
Viveu, cresceu e nem sabia?

Pois saiba!
Sofrimento fronteiriço à raiva não respeita bandeiras
Mas a minha foi fincada à beira
De um precipício de metáforas:
Diz-me se o amor é o faraó-deus onipotente,
Ou todo um povo em diáspora?
                   

quinta-feira, 14 de julho de 2011

RODOVIA-IMAGINAÇÃO

    Fim da linha?
Extraviada via
    de mão dupla,
pé duplo,
    tronco único
e cabeça na contramão,
    preste bem a atenção:
és a extra-via
    que vai muito além da linha
na rodovia-imaginação.
       

terça-feira, 12 de julho de 2011

AMANHECENDO

    Ah, o verbo ser!
Conhece-se quem cunha o ser.
    Mas cunha
co’a unha que crava
    e estronda a aldrava
do amanhã-e-ser.
    

VALEI-ME, WALY!

DEVENIR, DEVIR

Término de leitura
de um livro de poemas
não pode ser o ponto final.

Também não pode ser
a pacatez burguesa do
ponto seguimento.

Meta desejável:
alcançar o
ponto de ebulição.

Morro e transformo-me.

Leitor, eu te reproponho
a legenda de Goethe:
Morre e devém

Morre e transforma-te.

(Waly Salomão)  

sábado, 9 de julho de 2011

THE MAN'S TOO STRONG


I'm just an aging drummer boy
And in the wars I used to play
And I've called the tune
To many a torture session
Now they say I am a war criminal
And I'm fading away
Father please hear my confession

I have legalised robbery

Called it belief
I have run with the money
I have hid like a thief
I have re-written history
With my armies of my crooks
Invented memories
I did burn all the books
And I can still hear his laughter
And I can still hear his song
The man's too big
The man's too strong

Well I have tried to be meek

And I have tried to be mild
But I spat like a woman
And I sulked like a child
I have lived behind walls
That have made me alone
Striven for peace
Which I never have known
And I can still hear his laughter
And I can still hear his song
The man's too big
The man's too strong

Well the sun rose on the courtyard

And they all did hear him say
You always was a Judas
But I got you anyway
You may have got your silver
But I swear upon my life
Your sister gave me diamonds
And I gave them to your wife '
Oh Father please help me
For I have done wrong
The man's too big
The man's too strong

SONHO IMPOSSÍVEL

Sonhar mais um sonho impossível
Lutar quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender

Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
Voar num limite improvável
Tocar o inacessível chão

É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão

E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão

Composição: Joe Darion, Mitch Leigh (versão em português de Chico Buarque)
  

quarta-feira, 6 de julho de 2011

CANTIGA

    Tive medo.
Ah, se tive!
    Nem mesmo os deuses sabem
o medo de quem vive e revive.
    E revive e revive de novo
o novo da antiga cantiga
    que canta e reconta este conto
rabiscado com letras e vida.
    Tive medo.
Ah, se tive!
    Só não teve 
quem não esteve.
    Eu estive.
                  

ESOTÉRICO

Para que cante alto quem é de cantar

 
Não adianta nem me abandonar
Porque mistério sempre há de pintar por aí
Pessoas até muito mais vão lhe amar
Até muito mais difíceis que eu prá você
Que eu, que dois, que dez, que dez milhões, todos iguais
Até que nem tanto esotérico assim
Se eu sou algo incompreensível, meu Deus é mais
Mistério sempre há de pintar por aí
Não adianta nem me abandonar (não adianta não)
Nem ficar tão apaixonada, que nada
Que não sabe nadar
Que morre afogada por mim



(Gilberto Gil)
                                 

segunda-feira, 27 de junho de 2011

A PAZ

A paz invadiu o meu coração
De repente, me encheu de paz
Como se o vento de um tufão
Arrancasse meus pés do chão
Onde eu já não me enterro mais


A paz fez um mar da revolução
Invadir meu destino; A paz
Como aquela grande explosão
Uma bomba sobre o Japão
Fez nascer o Japão da paz


Eu pensei em mim
Eu pensei em ti
Eu chorei por nós
Que contradição
Só a guerra faz
Nosso amor em paz


Eu vim
Vim parar na beira do cais
Onde a estrada chegou ao fim
Onde o fim da tarde é lilás
Onde o mar arrebenta em mim
O lamento de tantos "ais"


(Gilberto Gil)
                   

TRIZ E TESA

      A ilusão da eternidade
é o que nos faz infeliz.
      A geniosa felicidade
quer sempre o gozo por um triz.
                             

GENEALOGIA

       Não, meu amor,
amizade não é menos!
       É mais, é muito mais.
Somos nós dois e os pequenos
       e tudo o mais que a vida traz.
                                  

AZEDUME

     Empurrar a quem se ama para a vida
deixa marcas na estória
     d’um doce amor que quer guarida.
                                                       

FORA DE ÓRBITA

     Inadvertido e inconsciente ariano
guerreia epopéias
     no fundo do oceano