sábado, 21 de novembro de 2009

CONVERSA AO PÉ DA CRUZ (2)

Já ia próximo o fim do martírio de Jesus, dependurado na cruz dos ladrões e desobedientes ao bem viver romano. Chega Bertold Brecht, fumando charuto e de boina. Aproxima-se da cruz. Ninguém o vê a não ser Cristo, que volve já quase sem forças a cabeça na sua direção. Diz Brecht:


- Homem, me diga uma coisa: de onde você tiraria toda a sua nobreza se eu lhe dissesse que por mais doloroso que seja o seu martírio, a morte de um homem não redimi a humanidade?

domingo, 15 de novembro de 2009

PARADOXO(3)

E a verdade se revela
Em se admitir o quanto
A altera quem proclama

E o realismo nos arvora
Na ciência dos ensaios
Exaustivos que o criam

E se forja a confiança
Com a confissão de tudo
Quanto falha se possui

PARADOXO (2)

E a verdade se revela
Em se admitir o quanto
A altera quem proclama?

E o realismo nos arvora
Na ciência dos ensaios
Exaustivos que o criam?

E se forja a confiança
Com a confissão de tudo
Quanto falha se possui?

GOTAS DE PIMENTA

Perdi o teu amor
Na treva do meu medo

Não mais café da manhã
Não mais  tardes de leitura
Rabugices
              Candura
                          Sossego

Há porém
Em cada meio dia e sempre
Curtidas gotas de pimenta
do teu amor ausente

sábado, 14 de novembro de 2009

CONVERSA AO PÉ DA CRUZ

Já ia próximo o fim do martírio de Jesus, dependurado na cruz dos ladrões e desobedientes ao bem viver romano. Chega Nelson Rodrigues, anacrônico e de cara inquiridora. Aproxima-se da cruz. Ninguém o vê a não ser Cristo, que volve já quase sem forças a cabeça na sua direção. Diz Nelson:


- Padre, me diga uma coisa: que espécie de pai cruel e desnaturado é esse que simplesmente sai espalhando por aí que seu próprio filho é um grandessíssimo FILHO DE MÃE VIRGEM?

A SIERGUÉI IESSIÉNIN

(...)
Que o tempo cuspa balas para trás,
E o vento no passado só desfaça
Um maço de cabelos.
Para o júbilo o planeta está imaturo.
É preciso arrancar alegria ao futuro.
Nesta vida morrer não é difícil.
O difícil é a vida e seu ofício.

(Maiakóvski)

domingo, 8 de novembro de 2009

360°

A última escolha
Me leva ao princípio
Estão todos mortos
Exceto a vida.

DIALÉTICA DA LAMA

O nome não foi jogado na lama
Porém, definitivamente,
Há lama no nome

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

AVESSO

Quis a volta o pensamento
Do que há muito é escombro
Feito dor que nega o tombo
E esgarça o sentimento

Quis depois fel e vingança
Pra provar do amor o avesso
E bradar na idéia a ânsia
De amar a qualquer preço

domingo, 25 de outubro de 2009

LEVE

À leveza, é o que se diz,
não se chega pelo orgulho
que remói de si o entulho
num altar de um só juiz

A leveza é da tragédia
provação do coração:
é sorrir mesmo sem rédeas
Respeitar dizendo não

sábado, 10 de outubro de 2009

SONETO INEVITÁVEL

Ante o vazio que nunca se evita
Ante o prazer que provoca sentidos
Não se antevê segurança de abrigos
Pouco se crê sofrimento que grita

Feito espiral que me redemoinha
Toda esperança ao fundo tragada
Vejo escorrer o que antes continha
Sem perceber nova esquina me aguarda

E a solidão, na soleira, na chuva
Não mais se ri nem tampouco acusa
Meu coração pelo crime de amar

Sem te saber me espreitas de perto
Oh, doce incerteza de amargo indiscreto
De mim faz tua presa sem mais nem pesar

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

ADUBO POÉTICO

Tem poesia que nasce do estrume
Do mundo que me circunda
Sobe e cai do mesmo cume

Tem poesia que ignora desafeto
Segue em frente, vira curva
Cumprimenta o que há de incerto

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

SÍNTESE

Vontade louca
De resolver
A existência
Em um só dia

Cadê você
Girando o mundo
Sem eu saber
Que eu não sabia?

NÁUFRAGO SEM MAR

Cedo era todo dia
O mar
A alegria
Movimento incessante
O peixe dentro d'água
Maré cheia
Vazante

Ressacas
Tormentas
Coração cheio de si
O medo
A morte
Respirar alívio
Sorrir

Palavras?
Poesia?
O que dizer?

Náufrago sem mar
Devo remar
Amanhecer

terça-feira, 29 de setembro de 2009

ÚLTIMA VIGÍLIA

A ti desejo
Enquanto dormes

Da sombra vejo
Sou o que morre