sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

ALÉM DO BEM E DO MAL - 12

 
O atomismo materialista é uma forma de metafísica (atomismo cristão da alma). O átomo fixo e eterno. A alma fixa e eterna. Ambos devem ser refutados.
 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

ALÉM DO BEM E DO MAL - 11

 
Kant orgulhava-se da sua tábua de categorias. Orgulhava-se, inclusive, de ter descoberto no homem uma nova faculdade: a dos juízos sintéticos a priori. Fazendo uso dessa sublime criação chamada por Kant de descoberta, a filosofia alemã, então, floresceu através dos jovens pensadores que se puseram, com diligência, a descobrir novas faculdades ou algo de mais orgulhoso ainda. Foi um período para lá de inocente e rico do espírito alemão, no qual cantou a fada má do romantismo. Mas eles cresceram, o sonho de descobrir o antídoto para combater o sensualismo prepotente desvaneceu-se e o que restou foi um manto de conceitos cinzentos e senis. 

Voltando a Kant, ele então se pergunta: mas como são possíveis os juízos sintéticos a priori? Ele mesmo responde: graças a uma faculdade. Mas será isso uma resposta? Não será apenas a repetição da pergunta? Tais juízos não são, justamente, uma faculdade? Daí temos, os juízos sintéticos a priori são possíveis graças aos juízos sintéticos a priori! Como não ceder aos ares da comédia vinda de tal descoberta? 

Mas já é tempo de substituir a pergunta do velho Kant por outra: por que é preciso acreditar nesses juízos? Eu mesmo respondo: para a conservação dos seres da nossa espécie, esses juízos devem ser tomados como verdadeiros, mesmo que sejam criações, e não descobertas.
         

ALÉM DO BEM E DO MAL - 10

  
Enquanto, na Europa, se debate o problema do mundo real e do mundo aparente, chego quase a sentir saudades daqueles céticos microcopistas do conhecimento. Seu instinto, que os coloca fora da realidade moderna, não foi refutado. Um pouco mais de força, de coragem, de arte e eles quereriam ir para além de tudo isso.
          

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

BLUE BIRD

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say, stay in there, I'm not going
to let anybody see
you.

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pur whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he's
in there.

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody's asleep.
I say, I know that you're there,
so don't be
sad.
then I put him back,
but he's singing a little
in there, I haven't quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it's nice enough to
make a man
weep, but I don't
weep, do
you?

(Charles Bukowski)
         

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

ALÉM DO BEM E DO MAL - 9

 
Viver de acordo com a natureza: essa é a verdade estóica. Mas a natureza é indiferente e o homem não suportaria tal indiferença, pois para nós, animais racionais, viver é ser diferente da natureza. Considerando, então, que a verdade estóica signifique, mais precisamente, viver de acordo com a vida: como poderia ser de outra maneira?! – caberia perguntar. 

O fato é que, apesar de dizerem que retiram da natureza o seu princípio, na verdade, os estóicos impõem a ela a natureza estóica criada por eles, identificando assim, tudo o que existe à sua própria imagem e semelhança, à moral estóica (belo exemplo da tirânica idéia de que o homem é a medida de todas as coisas, mesmo quando diz ter recebido da natureza o seu princípio). 

Enfim, assemelha-se mais com a tirania do que com qualquer outra coisa a relação que o estóico propõe à natureza. O próprio estóico, portanto, é um tirano de si mesmo – e deseja, igualmente ser o tirano da natureza e de tudo o mais. Mas o que não é essa tirania senão a própria filosofia metafísica e dogmática, cuja vontade de potência intelectual deseja nada menos do que criar o mundo e sua causa primeira?
 

ALÉM DO BEM E DO MAL - 8

  
Aquele que busca a verdade sempre revela as próprias convicções (seja deliberadamente ou não).
     

ALÉM DO BEM E DO MAL - 7

   
Epicuro chamou Platão de comediante por sentir despeito e inveja em relação ao porte majestoso da sua filosofia (?). Quem era, na verdade, Epicuro, que mesmo os gregos não se aperceberam?
              

JOGO DE AZAR

Notícias buscam canal.
Espremidas em beco estreito
obstruem a circulação,
ou quase.

Adiante,
inundam as tábuas que rangem
num sótão repleto de estórias.

Distante e em todos lugares
a aposta está sobre a mesa
e a sorte e o azar sobre a cama.
   

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

ALÉM DO BEM E DO MAL - 6

 
O metafísico vê a sua filosofia como o fim último da sua existência, como uma espécie de instinto do conhecimento que assume o papel de senhora legítima dos demais instintos, os impedindo de participarem da verdade por ela revelada.

Porém, a filosofia metafísica dogmática é feita de confissões espirituais, sutis memórias e intenções morais (semente donde nasce a planta completa). Tudo no metafísico dogmático é pessoal. Sua filosofia nada mais é do que o testemunho da hierarquia moral dos seus instintos mais íntimos.
       

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

ALÉM DO BEM E DO MAL - 5


A verdade do metafísico dogmático, na maioria das vezes, não passa de uma afirmação arbitrária, de um capricho, de uma intuição ou de um desejo íntimo e abstrato que ele defende com auxílio da própria razão rebuscada. Mas acusá-los de falta de sinceridade é o mesmo que vê-los aprofundar a defesa do seu preconceito a ponto de tornar cada vez mais dogmática a verdade a qual defendem. O metafísico dogmático está muito longe de possuir a perspicácia própria da consciência que confessa a si mesma a sua mentira. 

Ao invés disso, temos a hipocrisia rígida e virtuosa de Kant e o malabarismo pretensamente matemático de Spinoza.
    

ALÉM DO BEM E DO MAL - 4

 
O valor que importa em um juízo não é o da sua falsidade ou veracidade, mas o da sua serventia para a conservação da espécie. Tanto é assim que se pode mesmo dizer que juízos falsos, como as ficções da lógica, são os mais indispensáveis, de maneira que renunciá-los seria renunciar à própria vida. Portanto, estar além do bem e do mal é admitir que o não-verdadeiro é condição da afirmação da vida.
 

ALÉM DO BEM E DO MAL - 3

  
O pensamento consciente do filósofo faz parte de suas atividades instintivas. A consciência nunca se opõe, de forma decisiva, ao instinto. Assim, a liberdade com que a lógica se desdobra e opera o pensamento nunca se opõe ou exclui decisivamente as exigências fisiológicas necessárias à manutenção da vida do filósofo e de suas valorações.

Mas se o pensamento, de fato, é uma atividade instintiva do filósofo, isso quer dizer igualmente que não pode ser o homem a medida de todas as coisas.
       

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

ALÉM DO BEM E DO MAL - 2

 
O preconceito dos metafísicos dogmáticos é o de acreditar que tudo que é superior não pode ter sua origem naquilo que é supostamente inferior – mas tão somente em algo que seja tão superior quanto: no seio do ser, num deus oculto, na “coisa em si”, ou na antinomia dos valores.

Esforçando-se na seriedade com que utilizam esse preconceito, os metafísicos alcançam, então, a verdade. Para eles, superior a tudo o mais porque originada pelas operações da faculdade que fez do homem um animal superior: a razão. Mas, se a superioridade de tal origem não passar de uma valoração superficial (preconceito), qual será o fundamento do valor dessa verdade tão amada e mesmo necessária àqueles que a proclamam?
         

domingo, 8 de janeiro de 2012

ALÉM DO BEM E DO MAL - 1

  
A necessidade de saber a verdade.
Quantos problemas nos tem levantado essa ânsia de verdade!
Que perplexidade poderá provocar
o fato de nos ter levado, com essa esfinge,
a fazer perguntas?
Afinal, quem vem aqui interrogar-nos?
Que parte de nós tende para a verdade?
Nesse momento é que perguntamos pelo valor dessa vontade.
Por que não havíamos de preferir a não-verdade?
Talvez a incerteza?
Quem sabe a ignorância?
Terá sido a questão da verdade que se nos apresentou,
ou, pelo contrário,
fomos nós que nos apresentamos a ela?
Qual de nós é aqui Édipo?
Quem a esfinge?

[buscamos a verdade para resolver um problema
ou multiplicamos o problema na busca da verdade?
Édipo decifra a charada da esfinge
e, então, se torna a própria charada.
Édipo foi o primeiro metafísico dogmático!]
                           

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

ALÉM DO BEM E DO MAL - PREFÁCIO

 
Se a verdade é uma mulher, é espantosa e inesgotável a falta de tato e seriedade excessiva com que os filósofos dogmáticos tentam conquista-la. De fato, o dogmatismo é uma grandiosa e solene brincadeira de criança – talvez isso tenha parte no referido insucesso. São peças de edificações todas erguidas sobre uma certa coisa usada como primeira pedra. Edificações tão sublimes e absolutas quanto as superstições populares ou as generalizações de fatos pessoais tão restritos quanto humanos, demasiadamente humanos.

Na antiguidade, grandes edifícios foram construídos – sob custos colossais de riqueza, trabalho e perspicácia – para expressar o espanto tão humano diante da grandeza cósmica sobre a qual a astrologia se debruçou. Na filosofia ocidental, o platonismo é o edifício de grandeza máxima.

Embora não seja desejável excluí-lo dogmaticamente, foi o platonismo que criou (erro nefasto) a pedra primeira, a coisa sobre a qual a criança ergue, com peças, suas edificações: o espírito puro e o bem em si. Eu, portanto, herdo agora a força vinda da luta pela afirmação incondicional da vida (e do perspectivismo, sua condição fundamental) contra este erro.

Escárnio: teria Sócrates merecido a cicuta?